Foto panorâmica da Igreja

Foto panorâmica da Igreja

Evangelho de Lucas 20.27-40

Explicação do teólogo Gerson Linden sobre o Evangelho de Lucas 20.27-40, texto bíblico do culto desta segunda semana de novembro.


Mordomia da Oferta Cristã

Mordomia da Oferta Cristã

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Artigo - Agonia do auto-controle

Dizem que o problema da Seleção Brasileira foi o descontrole. Um desafio não só no esporte, mas em tudo. No Novo Testamento, o termo grego para domínio próprio é “agonidzomai” – de onde vem o “agonizar”. O apóstolo Paulo usa esta palavra para dizer que aquele que deseja ganhar o prêmio que não estraga, precisa agonizar o corpo a fim de não ser desqualificado (1 Co 9.27). O poeta romano Horácio, contemporâneo de Paulo, também declarou isto, que “o jovem atleta que deseja vencer nas corridas precisa suportar muito e fazer muito; abster-se do amor e do vinho”. Mas não foi isto que Dunga impôs aos jogadores? Qual foi então o motivo da derrota? O problema está na cara, ou melhor, no coração.

A dificuldade da Seleção Brasileira é uma característica nossa, destes tempos de extrema competitividade. Em tudo precisamos provar que somos os melhores, e no estresse do jogo da vida e da morte, perdemos no segundo tempo. O goleiro do Flamengo, por exemplo. Se as suspeitas se confirmarem, foi pura falta de controle que o transformou em assassino da ex-amante. E esse PM que matou o motociclista na blitz policial em Caxias do Sul? Foi descontrole. O que acontece no campo de futebol diante de milhões de expectadores, se dá na vida real fora dos gramados. E pior, acontece com nós. No trânsito, no serviço, no supermercado, na família... E desse jeito perdemos o prêmio – a coroa da temperança, do bom senso, da vida.

Aristóteles escreveu: “Considero mais corajoso aquele que domina os seus próprios desejos do que aquele que conquista os seus inimigos; pois a vitória mais difícil é a vitória sobre o próprio eu”. Paulo sabia disto e por isto confessa: “Não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é eu que faço (...) Como sou infeliz! Quem me livrará deste corpo que me leva para a morte?” Ele logo responde num desabafo: “Jesus Cristo” (Romanos 7.19, 25). Na carta aos Gálatas lembrou que um dos frutos do Espírito Santo é o domínio próprio (5.23).

Ao admitir que o maior inimigo sou eu mesmo, então, e só então, começa o treinamento. Uma agonia, sem dúvida, mas que redunda em domínio próprio. O único jeito nesta competição. Por isto a recomendação: “Que o Espírito de Deus, que nos deu a vida, controle também a nossa vida” (Gálatas 5.25).

Marcos Schmidt
Jornal NH de 8 de julho, 2010

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Artigo - Jogo decisivo

“Devemos nos esforçar pela excelência da Copa do Mundo, e ao mesmo tempo, garantir que ela deixe benefícios para todo o povo”. São palavras de Nelson Mandela, que passou quase um terço da vida atrás das grades sob o regime racista do apartheid, e que hoje, aos 92 anos, ainda é considerado a pedra fundamental para a paz entre brancos e negros sul-africanos. Dono das virtudes do perdão e da reconciliação, a exemplo de José – o famoso personagem bíblico vendido pelos irmãos como escravo – Mandela seguiu pelo mesmo caminho depois da prisão ao tornar-se chefe da nação. Quem conhece a história bíblica, no entanto, lembra que o novo faraó do Egito “não sabia nada a respeito de José” (Êxodo 1.8), e os efeitos desta amnésia foi o apartheid no Egito. Mandela sabe deste perigo, e por isto outra frase dele: “Que a recompensa trazida pela Copa do Mundo prove que a longa espera pela liberdade em solo africano valeu à pena”.

E se as palavras deste líder africano têm respaldo na própria vida, valem também estas: "Não há caminho fácil para a liberdade”. Lembro aqui de outra figura bíblica, Paulo, que também esteve na prisão e marcou um dos gols mais bonitos no gramado das Escrituras: “Cristo nos libertou para que sejamos realmente pessoas livres. Por isto, continuemos firmes como pessoas livres e não se tornem novamente escravos” (Gálatas 5.1). Essa epístola tem um recado sobre o perigo de “outro evangelho” (1.7), crença baseada na justiça e regras humanas, e que coloca Cristo para escanteio. E por isto gera confusão no meio de campo: inimizades, brigas, ciumeiras, acessos de raiva, ambição egoísta, desunião, divisões (5.20).

Mandela joga na prorrogação de uma partida decisiva, e a Copa do Mundo pode coroar a vitória da liberdade política, conquistada com sacrifício. No entanto, educado no cristianismo e assistido por capelães religiosos nos tempos de presídio, aprendeu que a escravidão está mesmo no coração e não numa cela. Isto porque “não existe diferença entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” (Gálatas 3.28). Este é o maior benefício que alguém pode receber neste mundo injusto e segregado.

Marcos Schmidt
Jornal NH de 1º de julho, 2010



quinta-feira, 24 de junho de 2010

Artigo - A fogueira do João

No meio de fogueiras e futebol, João Batista é lembrado (e esquecido) neste 24 de junho, que conforme a tradição, nasceu 6 meses antes de Jesus. Foi um cara esquisito já nos padrões daquele tempo. Ermitão do deserto, com um roupão de couro de camelo, comendo gafanhotos, vuvuzelava às pessoas: “Arrependam-se dos seus pecados porque o reino do céu está perto” (Mateus 3). Teve um final melancólico – foi preso por falar o que não devia e decapitado, com a cabeça numa bandeja. Tudo pelos caprichos de um rei que também perdeu a cabeça, mas por uma dança sensual de Salomé (Mateus 14.11).

Estranho festejar a vida deste pobre coitado, vestindo-se de caipira e dançando quadrilha. Mas tem alguma coisa normal neste planeta? As contrariedades são as regras, as normalidades exceções. Por isto, seria uma vida decadente ao formato de sucesso, se Jesus não tivesse afirmado: “De todos os homens que nasceram, João Batista é o maior” (Mateus 11.11). “Ele é o cara”. Esta é a conclusão do Salvador. Com isto, João tem de volta a cabeça, a boca, a voz, a mensagem. A vida. E por quê? Porque ele preparou o caminho para passar aquele que disse: Eu sou a Vida. É que João Batista pregou o arrependimento dos pecados, a única estrada para o perdão que Jesus oferece na cruz.

Os problemas são os outdoors, as propagandas que surgem na viagem. E que convidam aos atalhos e caminhos alternativos. Algo parecido com a própria festa de São João. O objetivo dela é a reflexão. Nada contra os festejos, mas então, que fosse a Festa da Fogueira, ou coisa parecida. São as contrariedades. E assim a gente vive o dia-a-dia. Depois, quando termina a brincadeira, vem o que é sério. E daí não adianta dançar quadrilha, ou vestir a camiseta do time.

Também não adianta ser um João Batista. Foi Jesus quem disse: “Ele jejua e não bebe vinho, e todos dizem: está endemoninhado. O Filho do Homem come e bebe vinho, e todos dizem: Vejam! Este homem é comilão e beberrão”. (Mateus 11.18-19). Por isto a conclusão do Salvador: não importa o que as pessoas falam, o que interessa é o resultado, o que a pessoa é. Algo difícil quando a gente vive de aparência e não de substância. Mas nada impossível enquanto o reino do céu ainda está perto.

Marcos Schmidt
Jornal NH de 24 de junho 2010


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Artigo - Hora do silêncio, hora do barulho

O barulho das “vuvuzelas” me incomoda já faz tempo. Tenho um zumbido nos ouvidos, um chiado constante e perturbador. Dizem que 17% dos brasileiros sofrem deste mal. Meu desafio é fazer igual a um alemão que encontrou a fórmula para "filtrar" o incômodo zunido das cornetas africanas, que chega aos ouvidos do mundo inteiro pela televisão. Ele desenvolveu um programa de computador que deixa a transmissão livre do barulho. No meu caso, o “filtro” é não pensar na zoeira que vem de dentro da cabeça.

Parece que o único jeito nesta sociedade do barulho é se acostumar com o barulho. Vivemos a cultura das “vuvuzelas”. Tem saída? A Fifa diz que não. Permitiu as cornetas nos estádios porque fazem parte da cultura local. Este é o nosso problema. Nos acostumamos com as loucuras que chamamos de cultura. E daí, o único jeito é inventar “filtros”. Mas já disse o Sábio que tudo neste mundo tem a ocasião certa – tempo de ficar calado e tempo de falar (Eclesiastes 3.7). Só que hoje não encontramos mais o tempo do “ficar calado”. Se não é o barulho que vem da rua, é o ruído constante dentro de casa vindo da televisão. E assim falta o saudável silêncio para a conversa com os outros e a conversa com Deus. Silêncio para a leitura, reflexão, meditação, oração. Coisa que o Senhor Jesus recomendou: vá para o silêncio do seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai (Mateus 6.6). E se até no céu houve silêncio após os gritos de louvores a Deus (Apocalipse 8.1), então, mais do que nunca, precisamos aqui em baixo de uma pausa para as vuvuzelas.

O próprio Filho de Deus foi um “mistério guardado em silêncio nos tempos eternos”, explica o apóstolo (Romanos 16.25). Uma quietude divina do Antigo Testamento antes da revelação de Jesus, rompida pelo coro dos anjos na noite de Belém (Lucas 2.14). E se o Salvador morreu igual a uma ovelha muda, sem abrir a boca (Isaías 53.7), prometeu que um dia voltará em meio às vuvuzelas celestiais (Mateus 24.31). Por isto a oração: “Ó Deus, não fiques em silêncio! Não te cales” (Salmo 83.1). Mas também a ordem: “Que todos se calem na presença de Deus, o Senhor, pois ele vem do seu lugar santo para morar com o seu povo” (Zacarias 2.13). Por isto, feliz aquele que sabe a hora do barulho e respeita a hora do silêncio.

Marcos Schmidt
Jornal NH de 17 de junho 2010


terça-feira, 15 de junho de 2010